No momento em que escrevo, apenas algumas horas nos separam da sineta final da turnê Viva La Vida. Parece que, depois do show de Guadalajara, fomos todos simultaneamente tomados da certeza de que estamos caminhando para o final da turnê. Finalmente caiu a ficha de que “só tem mais um show” – que o show de amanhã em Monterrey vai ser “o último” – e todos nos damos conta do fato de que esse é o fim desse capítulo.
É claro que já “finalizamos” a turnê uma vez. Os shows no estádio Wembley foram o fim de uma corrida muito atarefada. Mas, no fundo, no fundo, todos sabíamos que ainda tinha esses shows na América Latina – então não foi *realmente* o fim. Estávamos apenas dando um tempo. Ficamos pensando sobre isso essa manhã, durante o café. Guy destacou que era como se, depois de ter gravado o último episódio de uma temporada, o elenco fosse convencido a fazer um especial de Natal.
Noitadas e festas foram planejadas algumas vezes ao longo dessa parte turnê para que a equipe se reunisse e compartilhasse do pão, mas as circunstâncias continuaram conspirando contra elas. O Franksy e a Marguerite, no entanto, decidiram que era o limite. Ontem à noite, todos nós nos encontramos em um restaurante para umas bebidas e um jantar derradeiro.
A noite começa inevitavelmente no bar. Quando todos chegam, a atmosfera é de bastante formalidade. O assunto das conversas é o que os outros estão planejando fazer, que é insano que já tenham sido quase dois anos. O encontro dá a quase mesma impressão que dão casamentos ou festas de Natal. É raro que a gente esteja no mesmo lugar e na mesma hora com o intuito único de nos divertimos.
Bebida vai, bebida vem, perguntamos uns aos outros sobre as pessoas queridas; muitos de nós fomos a casamentos de nossos companheiros de equipe ao longo dos anos ou caímos de paraquedas em seus quartos de hóspede pelo menos uma vez. Conhecemos os filhos uns dos outros e podemos até dizer “como eles cresceram”. Mas é raro (e adorável) conversarmos sobre “vida real”. De alguma maneira, assunto de trabalho ou o último drama do trabalho tendem a se interpor no caminho.
Além da família em casa, também falamos da “família daqui”. Perguntamos se alguém tinha notícia do pessoal com que trabalhamos ao longo dos anos. Alguns estão bem, outros são motivo de preocupação. Assim como em toda família, conseguimos deixar cada em frangalhos com apenas algumas palavras, mas também nos importamos o bastante para entrarmos em qualquer batalha ao estalar de dedos.
O jantar acaba e o Sr. Champion surge para dar um desfecho às coisas. Ele faz um discurso para agradecer a todos os presentes por todos os seus esforços nessas últimas semanas e nos últimos dois anos. Ele é eloquente, muito autêntico e, sobretudo, engraçado. Eu teria tirado fotos, mas estava tão escuro no restaurante que ou estaria postando fotos de silhuetas ou fotos de pessoas protegendo seus olhos de um cara chato com um flash. Além do mais, era para ser uma noite de folga…
É claro que é insano agirmos como se fosse o “fim” quando ainda temos um show por fazer. A superstição roadie reza que isso é comportamento pecaminoso e à la kamikaze. Amanhã, porém, tudo isso vai desaparecer em um piscar de olhos. Vamos sair correria frenética do dia-a-dia, dando cabo das tarefas do dia, para sermos lançados em uma velocidade de mil quilômetros por hora direto na parede de tijolos que chamamos de “vida normal”. Celebrar o que passamos e o que fizemos é mais do que correto e coerente.
Assim que os pratos são tirados, somos tomados pelo impulso de nos reagruparmos no bar no andar de cima. Dan Green e eu subimos para dar uma olhadinha rápida. Está escuro e cheio de pessoas meticulosamente bem vestidas que nós nunca vimos. Ainda pior, tem um DJ tocando um jazz-funk horrível e em um volume que torna a conversa inviável. Voltamos para baixo, onde todos decidiram sensatamente ficar andando por aí na sala de jantar. Lentamente, o clima vai ficando mais ameno, à medida que o pessoal se dispõe a lutar contra o barulho – e, sem dúvida, redefinir completamente a aparência do bar.
Dou minhas desculpas e saio de fininho. Afinal de contas, tenho relatos sobre Guadalajara a escrever…
Então vamos lá. Fizemos um show desde a última vez que escrevi. Guadalajara foi outra nova destinação para mim. Tal como a Cidade do México e Bogotá, ela está localizada bem acima do nível do mar. Isso fez com que muitas pessoas ficassem com falta de ar por um bocado de tempo. Com efeito, havia cilindros de oxigênio do lado do palco em cada uma das noites para os momentos em banda se empolgasse demais.
Aqui está o Sr. C em meio à completa escuridão atrás da bateria. Ele está tomando fôlego antes de Viva, enquanto o Chris canta sozinho no palco C. E eu falando que não queria postar fotos de silhuetas….
O ar rarefeito está declaradamente melando o tênis de mesa dos bastidores. O treinador Dan afirma que isso explica por que cada lance em que ele aplica sua jogada especial, a bola vai “muito mais longe”. Ele chama isso de “ciência aplicada”. Outros dirão que é simplesmente o caso de ele não gostar de perder… ;-)
O show foi épico. O tempo está realmente deslumbrante e a multidão, maravilhosamente insana. É um estádio menor do que aqueles em que estivemos recentemente, mas fazem o barulho suficiente para corresponder ao dobro do normal. Do nada, a introdução de Yellow se torna uma perfórmance não-planejada de Parachutes. Não tenho certeza de quantas vezes ela foi ouvida ao vivo, mas posso apostar que foram muito, muito poucas!
E assim chegamos a Monterrey. A chegada, sobrevoando as montanhas, é espetacular. Ficamos presos no aeroporto esperando a esposa do presidente deixar o caminho livre. Somos então perseguidos por paparazzi que não têm medo de absolutamente nada. De nós, muito menos. Nós temos uma compreensão bem razoável de perigo e eles estão claramente se comportando de modo irracional. Apesar da escolta de policiais em motos e nossos vidros completamente enegrecidos, os carros dos paparazzi continuam no perseguindo como zangões enfurecidos. É imbecil, desmotivado e completamente perigoso.
E assim chegamos para a hora do jantar. É melhor eu postar isso e arrumar as malas. Casa amanhã….
R#42

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